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Misheberach Lechaialei Tzahal

Misheberach Lechaialei Tzahal
Prece pelos Soldados de Israel - Aquele que abençoou nossos pais Avraham, Itschak e Yaakov, abençoará os soldados das Forças de Defesa de Israel, que guardam a nossa terra e as cidades de nosso D-us (...) O Santo, bendito seja Ele, guardará e livrará os nossos soldados de toda angústia e aperto, e de toda ocorrência e enfermidade, e mandará bênção e sucesso em todos os seus atos (...) e digamos AMEN. (que os méritos das preces e estudos aqui realizados sejam revertidos como bênçãos a Alisha bat Devora)
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sexta-feira, 13 de julho de 2007

Guemilut Chassadim


“Sobre três pilares o mundo se sustenta: a Lei, o trabalho e atos de bondade”
(Ética dos Pais 1,2)





Chassadim é o plural de chessed. Guemilut é a prática, o ato. Em outras palavras, a prática de vários “chessed’s”. Mas o que vem a ser chessed?
Freqüentemente encontramos, nas traduções da Torá, as palavras piedade ou misericórdia. Porém, qualquer tradução interfere no conceito original, modificando-o. Chessed é chessed, não há o que discutir. Cabe citar Aron Barth:

Maimônides entendeu o termo muito bem e explicou que chessed leva mesmo ao “excesso”, especialmente de fazer o bem a alguém que não tem o direito de recebê-lo (Guia dos Perplexos 3, 53). Qual é a qualidade que leva a isso? É a misericórdia? Não; isso exprime muito menos do que o que se encontra nos numerosos versículos que citaremos. Piedade, assim como misericórdia, podem ser, em certos casos, o resultado de chessed, o resultado do sentimento expresso na palavra; mas chessed mesmo é mais do que isso. Chessed significa amor. Não é o amor entre noiva e noivo, pais e filhos; isto, em geral, é indicado pela palavra ahava. (...)

É importante entender que quando Maimônides diz “não tem direito” não significa “não merece”. O que o sábio quis dizer é “fazer bem a uma pessoa que não fez nada para merecê-lo”. Ou seja, nada de recompensas ou méritos. Apenas o bem por si só. Tal amor pode ser melhor entendido através da explicação do próprio Maimônides sobre o versículo “... e amarás a teu semelhante como a ti mesmo” (Levítico 19:18):

É o preceito com o qual fomos ordenados a amarmo-nos mutuamente tal qual nos amamos; que meu amor e compaixão por meu semelhante seja como meu amor e compaixão próprios; seja por seu dinheiro, seu corpo, tudo que possui ou deseja. Tudo o que quero para mim, hei de querer para ele identicamente e tudo o que não quiser nem para meus amigos, o mesmo desejarei para ele. (Sefer Hamitzvot 206)

Note que Maimônides não estipula quem é o semelhante ou qual seu grau de proximidade para conosco. Tal amor, portanto, é incondicional. Amor pelo simples motivo de amar.

Porém, surge outra questão: como expressar tal amor? Maimônides dá a resposta:

São preceitos positivos, ensinados por nossos sábios: visitar um enfermo, consolar os enlutados, ajudar uma jovem humilde a casar-se, acompanhar as visitas, ocupar-se com todas as necessidades de um funeral, bem como alegrar os noivos no dia de seu casamento. Estes são atos de Chessed que se deve executar em pessoa e que não tem limitações. (Mishnê Torá, Leis do Enlutado 14,1)

No caso de um funeral, tal amor é considerado chessed shel emet, o verdadeiro chessed, uma vez que, por mais que esperemos, será impossível uma retribuição.

Uma importante ressalva precisa ser feita, para não confundir termos. Vimos sobre a Tsedaká, que é a prática da justiça social. Podemos confundir-nos, acreditando que tanto ela como Guemilut Chassadim implicam numa mesma conduta:

Ensinam nossos mestres: Guemilut Chassadim é superior à Tsedaká de três modos:

1) Tsedaká envolve apenas dinheiro. Guemilut Chassadim pode envolver tanto dinheiro quanto a pessoa;
2) Tsedaká pode ser dada apenas ao pobres. Guemilut Chassadim pode ser feito a pobres e ricos;
3) Tsedaká pode ser dada apenas aos vivos. Guemilut Chassadim pode ser feito a vivos ou mortos. (Talmud Sucá 49b)

Vários exemplos de Guemilut Chassadim podem ser encontrados em nossa literatura. A Torá começa e termina com Guemilut Chassadim, por exemplo. Em Gênesis 3:21 lemos que Deus, antes de expulsar Adão e Eva do Jardim do Éden, “fez roupas de pele para eles e os cobriu”. Já no final, tratando da morte de Moisés, o Todo-Poderoso o enterrou no vale (Deuteronômio 34:7).
Atualmente, encontramos Guemilut Chassadim sob várias formas: ocupar-se com um funeral - costurando os tachrichin (mortalha) ou apenas acompanhando-o -, costurando roupas para pobres, visitar doentes, consolar enlutados, emprestar dinheiro, ajudar nos preparativos de um casamento, etc. Com relação a este último, nossas comunidades irmãs ortodoxas costumam ter um departamento especializado, chamado Hachnassat Calá – “ajudar uma noiva a ‘entrar’”. Elas também costumam ter um departamento exclusivo para a difusão e prática de Guemilut Chassadim, chamado


GUEMACH




que são as inicias de Guemilut Chassadim. Neste contexto, o voluntariado é imprescindível para o cumprimento desta importante Mitzvá. É na figura do voluntário – askan, em hebraico - que é sintetizada toda a essência deste preceito.

Para melhor entendermos a conexão e as diferenças entre Tsedaká e Guemilut Chassadim, basta refletirmos sobre a seguinte história:

Rabi Levi Itschak, rabino-chefe da cidade de Berditchev, havia feito um acordo com os líderes comunitários de que só interromperia seus sagrados estudos caso surgisse alguma novidade. Certa vez, ele foi chamado. Um acirrada discussão tomava conta da sala de reuniões. O motivo: alguém havia tido a “grande” idéia de colocar uma caixa de caridade na porta da sinagoga. Havia, inclusive, uma explicação: os pobres não precisariam mais pedir de porta em porta. As pessoas poderiam doar de acordo com suas possibilidades e os pobres retirariam conforme suas necessidades.
Rabi Levi Itschak irritou-se: “Mas foi para isso que vocês me chamaram? Acaso não havíamos combinado de que só seria chamado em caso de novidade?
Os líderes não entenderam: “Mas, rabino. É uma nova idéia!”
“Não há nada de novo nisso.” – disse o mestre – “Na realidade, é uma idéia muito antiga. Os moradores de Sodoma e Gomorra já o faziam. Eles tinham uma caixa, na qual os ricos deixavam seus donativos, assim não precisavam olhar nos olhos dos pobres.”



Questões para reflexão:

1) O que você aprendeu com esta história?
2) Como podemos aplicar Guemilut Chassadim aqui em nossa vida?
3) Como aprimorar a participação do voluntariado em nossas atividades?

Prof. Sami Goldstein

Rabino da Comunidade Israelita do Paraná


terça-feira, 19 de junho de 2007

Tsedaká


“Justiça e somente a justiça perseguirás” (Deuteronômio 16:20)



Tsedaká, diferentemente do que a maioria imagina, não significa caridade. Na realidade, a palavra Tsedaká deriva de Tsedek – justiça. No entanto, difere desta no seguinte aspecto: ela se esforça em apartar a lei do caminho da injustiça e em prevenir e remover as condições que dão causa à injustiça. Em outras palavras, a melhor definição seria “justiça social”; uma justiça que busca a eqüidade e equilíbrio entre todos.
Segundo a tradição judaica, o Criador fez ricos e pobres para que os homens fossem responsáveis uns pelos outros. Segundo esta visão, as posses de uma pessoa não são vistas como sua conquista pessoal, mas, antes de mais nada, como uma dádiva divina, para que seja cumprida uma determinada missão. O homem tem o poder de amenizar as diferenças existentes na sociedade através de seus recursos, sejam eles seu dinheiro ou seu empenho. Tal conceito é enfatizado sempre que recitamos o Bircat Hamazon – a benção após as refeições. No final da primeira brachá, encontramos a seguinte passagem: “Bendito sejas, ó Eterno, que provê alimento a todos”. Como podemos afirmar isso, uma vez que vemos milhões de pessoas que não têm nem ao menos um pedaço de pão para comer? Nossos sábios explicam que Deus realmente provê alimento a todos; o mundo é um enorme celeiro, armazenando sustento e conforto a todos os homens. Porém, cabe aos próprios homens administrarem a correta divisão deste alimento, tomando o necessário para si e doando o restante para seu semelhante. Fazendo isto, estamos elevando nossa existência física a um plano mais espiritual. Reconhecendo Deus como o verdadeiro proprietário, estabelecemos um elo inquebrantável de união entre os homens e entre estes e seu Criador.
Aron Barth (Valores Permanentes do Judaísmo, Ed. B’nai Brith 1965), traz uma importante colocação:

Até o dia de hoje, os que trabalham no serviço social, seja teórica ou praticamente, concordam que a cláusula de abrigo, alimento e roupa estão no fundamento de toda atividade social. Do mesmo modo nos é ordenado: “Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres desabrigados; e se vires o nu, cubra-o e não te escondas de teu semelhante?” (Isaías 58:7). Foi isto que deu lugar à rede ramificada de Tsedaká entre o povo judeu. Fundos para a distribuição de ajuda financeira e alimento, para a conservação de lares para os velhos, os órfãos, abrigos, casas de roupas – não são classificados como caridade, fazendo favores aos pobres, como entre outros povos, que dão caridade a todos. (...) O homem pobre não recebe Tsedaká por meio de um presente, mas por direito. O judeu é culpado de séria transgressão se ele se esquivar de dar ao pobre o que lhe é devido. Não temos o direito de viver em nossas casas, vestir e comer se não fizermos com que, dentro de nosso alcance, outros não sejam deixados sem casa, roupa e comida.

Portanto, Tsedaká é um dever judaico e não uma opção social, já que “até mesmo o pobre que vive da Tsedaká deve fazer Tsedaká” (Talmud Guitin 7b). Isto seria caridade e não Tsedaká! Vale lembrar que caritas, em latim, significa amor. Caridade, portanto, é o ato de dar aos que não têm aquilo que se tem – somente por bondade ou piedade. Tsedaká implica numa ligação muito mais pessoal entre doador e receptor, uma vez que tal relação se baseia em dever X direito. Tal é sua força dentro da literatura judaica, que Tsedaká está diretamente associada à vida humana, sendo capaz, inclusive, de reverter qualquer mau decreto, principalmente em Yom Kipur, conforme está escrito: “A Tsedaká salvará da morte” (Provérbios 10:2).
Tsedaká, na Torá, está freqüentemente associada a questões agrícolas, sendo que uma série de preceitos são determinados a fim de proporcionar aos pobres uma vida mais digna. Maimônides (1135-1204) vai além, afirmando (Leis dos Presentes aos Pobres 10,1):

Devemos ter um cuidado com a Mitzvá da Tsedaká muito maior que com qualquer outro preceito positivo; pois a Tsedaká estabelece o verdadeiro sinal na descendência do Patriarca Abrãao (...) e a única forma de Israel ser redimido é por meio da Tsedaká.

Ressalta ele, ainda, oito níveis na prática da Tsedaká, enumerados, a seguir, em ordem ascendente:

1) O mais baixo é dar, mas com relutância ou contra a vontade;
2) Dar alegremente, mas não proporcionalmente à necessidade do necessitado;
3) Dar proporcionalmente com alegria, mas após ter sido solicitado;
4) Dar alegremente e em proporção, sem ter sido solicitado, pondo, entretanto, a esmola na mão do pobre, envergonhando-o;
5) Dar de maneira tal que o necessitado receba a esmola e saiba quem é o seu benfeitor, sem ser-lhe conhecido;
6) Conhecer o beneficiário, sem que este saiba quem é seu benfeitor;
7) Quando nem benfeitor nem beneficiário conhecem-se mutuamente;
8) E o mais alto nível: antecipar a caridade, evitando a pobreza – ajudando o irmão empobrecido, seja com um presente, empréstimo, estabelecendo-o no comércio ou ensinado-lhe uma profissão, de modo que possa ganhar sua vida honestamente e não precise pedir aos outros.

Maimônides ensina duas grandes virtudes: a preocupação em não humilhar outrém e, ao mesmo tempo, o resgate da auto-estima pessoal. Neste contexto, abre-se um espectro de trabalho muito maior, o voluntariado, sobre o qual falaremos adiante no tópico Guemilut Chassidim. Com base nisso, afirmaram nossos mestres: “a Tsedaká equivale a todas as outras Mitzvót” ou “aquele que faz Tsedaká secretamente é maior que o próprio Moisés” (Talmud Baba Metzia 9).
Prof. Sami Goldstein
Rabino da Comunidade Israelita do Paraná