Bruchim Habaim - Sejam Bem Vindos à NetSinagoga

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Misheberach Lechaialei Tzahal

Misheberach Lechaialei Tzahal
Prece pelos Soldados de Israel - Aquele que abençoou nossos pais Avraham, Itschak e Yaakov, abençoará os soldados das Forças de Defesa de Israel, que guardam a nossa terra e as cidades de nosso D-us (...) O Santo, bendito seja Ele, guardará e livrará os nossos soldados de toda angústia e aperto, e de toda ocorrência e enfermidade, e mandará bênção e sucesso em todos os seus atos (...) e digamos AMEN. (que os méritos das preces e estudos aqui realizados sejam revertidos como bênçãos a Alisha bat Devora)
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domingo, 15 de julho de 2007

Aprendendo a parar


A Parashá lida neste último Shabat trata sobre a permanência do nosso povo no deserto. Mais precisamente, relata todos os lugares onde acamparam. Quarenta e dois acampamentos em quarenta anos de travessia. O que mais chama a atenção, entretanto, é o nome da leitura: Massê. “Estas são as viagens (massê) dos filhos de Israel que saíram da terra do Egito...”(Números 33:1), assim relata a Torá. Mas que viagens são estas? Afinal, ficaram muito mais tempo acampados que propriamente dito viajando. Não seria mais correto dizer “estes são os acampamentos dos filhos de Israel”, já que a ênfase bíblica está nas suas paradas e não nas viagens? E mesmo assim, a viagem foi apenas uma e não várias: saíram do Egito e iam à Terra Prometida. O que aprendemos de tudo isso?
As paradas foram extremante importantes para o povo. Foi nelas que tudo de mais extraordinário aconteceu, tanto para o bem como para o mal. Foi na parada que o povo recebeu a Lei do Monte Sinai; foi nela que, também, curvou-se ante o bezerro de ouro. Foi na parada que colhia diariamente a maná – o alimento milagroso – que o sustentava; foi nela também que se rebelou juntamente com Corach e seus seguidores. Assim também, a parada era o momento de receber a revelação de D-us: o Eterno não se dirigia ao povo nas viagens, mas nas paradas. E a cada uma, um novo fato dava energia e impulso para que eles pudessem seguir adiante até seu objetivo final.
Nosso dia-a-dia não é diferente. Estamos acostumados ao movimento. A modernidade da vida faz com que valorizemos o dinamismo. Para ser mais, maior e melhor precisamos literalmente correr de um lado ao outro. Muitas vezes, nem mesmo sabendo o que procuramos. A vida é dinâmica, mas é nas paradas que o mais extraordinário acontece: construtores sabem que por melhor que sejam o material e trabalhadores empregados numa obra, se a massa não for deixada para descansar, jamais assentará; um bom lojista sabe que por mais grandiosas que sejam suas vendas, a menos que pare e feche para balanço, jamais saberá o quanto realmente lucrou. O maior exemplo disso é a matzá de Pessach. O que é ela senão um pão que não descansou? Chamado de lechem oni – o pão da miséria – ensina-nos que o pão que não pára jamais cresce e está condenado à miséria e descaso. No plano de santidade, encontramos também a virtude da parada: nosso momento mais sagrado na liturgia não é outro senão a Amidá, literalmente parada, no qual permanecemos de pé, em silêncio, sem qualquer gesto ou movimento. E o dia mais sagrado de nossa semana, o Shabat? O dia da parada, do descanso, da estagnação. O judaísmo não consagrada a correria dos seis dias da Criação, mas a inércia do sétimo. Sagrado não é saber pelo que corremos, mas sentir e deixar-se envolver pelos ensinamentos da parada.
Amigos, a vida é dinâmica, mas é nas paradas que tudo acontece. Paradas que escolhemos ou muitas vezes a nós são impostas. E há duas formas de se ver uma parada: um destino ou simplesmente uma escala. Ensinam nossos mestres na Ética dos Pais que “este mundo se assemelha a um corredor”. E assim como num corredor em que estamos de passagem, a vida é feita de escalas até nosso destino final. E a cada uma delas algo importante nos acontece, fazendo com que cada uma seja uma viagem por si só.
Talvez sua vida esteja parada; talvez você se encontre parado. Talvez a vida lhe mostre uma parede intransponível ou um obstáculo marcado pela dor, sofrimento e total estagnação. Pode parecer-lhe que qualquer reação tornar-se-á totalmente inútil. Mas lembre-se: é nas paradas que D-us se revela. Assim como todo atleta sabe que é necessário parar, recuperar o fôlego e retomar o impulso para alcançar novas marcas, assim também perceba que talvez, nesta parada, por mais dura que seja, uma voz venha do alto Lhe dizendo: você parou porque precisava; agora é momento de seguir adiante e chegar onde sempre quis.
Desfrute sua parada e faça boa viagem!

Prof. Sami Goldstein
Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Construindo pontes


Certa vez, dois irmãos que moravam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um riacho, entraram em conflito. Foi a primeira grande desavença em toda uma vida trabalhando lado a lado, repartindo as ferramentas e cuidando um do outro. Durante anos percorreram uma estreita, porém comprida estrada que corria ao longo do rio para, ao final de cada dia, poderem atravessá-lo e desfrutarem um da companhia do outro. Apesar do cansaço, faziam-no com prazer, pois se amavam. Mas agora tudo havia mudado. O que começara com um pequeno mal entendido finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas por semanas de total silêncio.
Numa manhã, o irmão mais velho ouviu baterem à sua porta. Ao abri-la, notou um homem com uma caixa de ferramentas de carpinteiro em sua mão. “Estou procurando por trabalho”- disse ele. “Talvez você tenha um pequeno serviço aqui e ali. Posso ajudá-lo?”
“Sim!” – disse o fazendeiro – “Claro que tenho trabalho para você. Veja aquela fazenda além do riacho. É de meu vizinho, na realidade, meu irmão mais novo. Brigamos muito e não mais posso suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira perto do celeiro? Quero que você me construa uma cerca bem alta ao longo do rio para que eu não mais precise vê-lo.
“Acho que entendo a situação”- disse o carpinteiro – “Mostre-me onde estão a pá e os pregos que certamente farei um trabalho que lhe deixará satisfeito.” Como precisava ir à cidade, o irmão mais velho ajudou o carpinteiro a encontrar o material e partiu.
O homem trabalhou arduamente durante todo aquele dia medindo, cortando e pregando. Já anoitecia quando terminou sua obra, ao mesmo tempo que o fazendeiro retornava. Porém, seus olhos não podiam acreditar no que viam. Não havia qualquer cerca! Em seu lugar estava uma ponte que ligava um lado do riacho ao outro. Era realmente um belo trabalho, mas, enfurecido, exclamou: “Você é muito insolente em construir esta ponte após tudo que lhe contei”
No entanto, as surpresas não haviam terminado. Ao erguer seus olhos para a ponte mais uma vez, viu seu irmão aproximando-se da outra margem, correndo com seus braços abertos. Cada um dos irmãos permaneceu imóvel de seu lado do rio, quando, num só impulso, correram um na direção do outro, abraçando-se e chorando no meio da ponte.
Emocionados, viram o carpinteiro arrumando suas ferramentas e partindo. “Não, espere!”- disse o mais velho – “Fique conosco mais alguns dias. Tenho muitos outros projetos para você”
E o carpinteiro respondeu: “Adoraria ficar. Mas tenho muitas outras pontes para construir.”
Assumamos uma missão em nossos corações: vamos construir pontes! Quando a vida impuser um rio de separação entre nós, não nos sirvamos disso como desculpa para abandonar o campo de batalha. Quando houver injustiça e solidão na outra margem, não tenhamos medo de correr ao outro lado com os braços abertos. É muito mais fácil fechar-se numa cerca e proteger-se dos problema. Afinal, construir uma ponte requer mais empenho; podemos nos molhar nas turbulentas águas da frustração e abrimos espaço para que o inimigo penetre em nossas vidas. É bem mais prático um muro! Mas precisamos arriscar. Só quem arrisca vive! Em hebraico, ponte escreve-se GUESHER. Com as mesmas letras, escrevemos REGUESH – sentimento, sensibilidade. Diz o Talmud (Brachot 6a): dvarim haiotsim min halev nichnassim el halev – o que sai do coração imediatamente entra no coração. Se começarmos a construir nossas pontes em nossos corações, com certeza atingiremos nossos objetivos.


Prof. Sami Goldstein

Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Saindo do cerco parte I


Amanhã (3/7) iniciamos um período dos mais solenes do ano. Conhecido como Bein Hametsarim - entre os cercos - as três semanas que vão do dia 17 de tamuz ao 9 de av, são marcadas pela tristeza, desconforto, luto e lamentação. Vários são os eventos trágicos ocorridos nestas duas datas, desde a Antigüidade até a História recente, mas, sem dúvida, o mais relevante é a destruição dos dois Templos de Jerusalém (em 586 a.C. e, posteriormente, em 70 d.C.). O Talmud Guitín dedica grande parte do seu quinto capítulo à narração do sofrimento passado pelos habitantes de Jerusalém e à dor do povo com a perda de amado seu santuário. Por isso, desde tempos remotos, judeus do mundo todo jejuam nestes dois dias, sendo o segundo tão extenso quanto Iom Kipur.
Neste artigo divido em duas partes, vamos analisar a trajetória destes dois eventos - cerco e destruição- a partir de uma perspectiva, ao mesmo tempo, religiosa e psicológica, com o objetivo de traçarmos um objetivo: reverter a tragédia em alegria; fazer com que a dor transforme-se em um sorriso. Afinal, nem todas as guerras são travadas dentro de um campo de batalha. Muitas delas estão dentro de nós. E, quando o inimigo é invisível, nossas chances de derrota são maiores.
Iniciamos com o cerco a Jerusalém. Os romanos, imbatíveis em sua força, cercaram a Cidade Santa, rompendo suas muralhas (17 de Tamuz), de tal forma que seus moradores não tinham outra opção a não ser render-se. Mas mesmo a rendição não significava a vida. Os relatos dramáticos mencionados no Talmud mostram como é cruel uma guerra, não importa qual seja a sua motivação. Sempre a vida - bem maior deste mundo - acaba sendo a perdedora.
Neste momento temos uma batalha sendo travada dentro de nós, semelhante àquela de tempos remotos. O inimigo - perda de valores, angústia, sofrimento, preguiça, dentre tantos - aproxima-se de nós, cercando-nos de todos os lados. E quanto mais esperamos, deixando para mais tarde nossa ação e reação, mais ele fecha o cerco, rompendo nossas defesas, a tal ponto de não termos como escapar.
A mística judaica ensina que nós, dentro de nosso corpo, possuimos dois tipos de instintos: um bom e um mal. Em constante disputa pelo poder, ambos “defendem suas teses” como sendo as verdadeiras. Aliás, o mesmo motivo de uma guerra real, na qual o invasor defende a veracidade e legitimidade de sua imposição. E nós, no meio desta briga, acabamos por sentir-nos cercados, indefesos, sem a mínima capacidade de reagir.
Um outro modo de ver uma disputa é analisando-a como um jogo. Muitos de nós jogamos e nem sempre nos damos conta da lição que podemos extrair deste ato. E nossos sábios não perderam a oportunidade de aproveitá-las. Assim dizia o Rebe de Kotzk:
“Existem três regras no jogo de damas, e assim devemos nos comportar durante nossa vida: a) é permitido andar somente para a frente; b) é preciso avançar casa por casa, passo a passo; c) se você chegar ao fim, estará livre para ir aonde quiser.”
O inimigo parece imbatível e sem sua iniciativa, vontade e disposição, com certeza sempre será. Mas o problemas, quando a parecem e parecem cercar-nos, não são o fim da linha. O povo de Jerusalém não teve outra opção, mas nós temos. Nosso adversário pode ser vencido. Basta apenas termos a vontade de vencer. E, vencendo, estaremos livres para ir aonde quisermos.


Eis os eventos que aconteceram no dia 17 de Tamuz, na História Judaica:

• Moisés quebrou as Tábuas da Lei;
• foi suspensa a oferenda diária no Primeiro Templo;
• foram rompidas as muralhas de Jerusalém, na época do Segundo Templo;
• Apóstomos, um soldado romano, queimou a Torá;
• um ídolo foi colocado no Templo.

Prof. Sami Goldstein

Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

domingo, 1 de julho de 2007

Como sentou-se solitária...


... a cidade que vivia cheia de povo! Com este suspiro, Jeremias inicia suas Lamentações, lidas anualmente no dia de Tishá Beáv. Testemunha da queda da Cidade Santa, presenciou a mais triste das visões: Jerusalém fora reduzida a pó; o Templo ardia em chamas; os cadáveres e pedras formavam o horrendo cenário de um cemitério a céu aberto; sobreviventes banidos e condenados ao exílio. Na minha opinião, o profeta poderia ter melhor descrito seu testemunho com palavras mais fortes como “devastada”, “desolada”, “destruída” ou “arrasada” e sentiríamos mais intensamente o ocorrido. No entanto, optou por descrevê-la como “solitária”. Por quê? Talvez a solidão seja a maior maldição que tenha recaído sobre Jerusalém; e a pior ao ser humano.
Conta-se a história sobre uma pessoa que havia sido muito ativa na comunidade durante décadas. Assíduo freqüentador da sinagoga, não perdia sequer uma reza. Amigos? Todos os conheciam e com todos se dava. Nunca recusou-se a contribuir e sua casa estava sempre aberta a visitantes. Entretanto, com o passar do tempo começou a isolar-se. Achou que já era hora de a juventude assumir a liderança; a sinagoga continuaria seus Serviços sem sua presença; os amigos já não mais tinham importância. E assim, o homem passou a viver uma vida solitária.
Certo dia do tenebroso inverno russo, o rabino, durante o Serviço Religioso, interrompeu suas orações e saiu da sinagoga. Os presentes ficaram atordoados. “O que estará acontecendo” – pensavam. Seguindo de longe, acompanharam o rabino e viram-no entrar na casa daquele homem. Espremendo-se por entre as frestas das janelas, presenciaram uma cena interessante: o judeu estava confortavelmente sentado em seu sofá, coberto por um lindo manto, diante de uma radiante lareira. O rabino não pronunciou sequer uma palavra. Dirigindo-se à lareira com uma barra de ferro, afastou um pequeno pedaço de carvão, deixando-o de lado. Longe do fogo da união, ele imediatamente se apagou. O rabino desejou-lhe um bom dia e voltou à sinagoga. Desde aquele dia, o homem não faltou mais à sinagoga, voltou às atividades comunitárias e novamente podia ser visto com seus amigos.
“E disse o Eterno D-us: ‘não é bom que esteja o homem só’” (Gênesis 2:18). A solidão e o isolamento são veementemente condenados pela Torá. Entretanto, o que vemos hoje é justamente o contrário, principalmente aqui no Brasil. Segundo o levantamento mais recente do IBGE, 4 milhões de brasileiros moram sozinhos, o que representa 9% dos domicílios do país. A quantidade é pequena se comparada a outros países com Inglaterra e França, mas viver só é uma tendência mundial. Quais seriam os motivos para isso?
Claro, existem os óbvios: um caso de divórcio, compromissos profissionais, etc. Mas, prefiro apontar um problema ainda maior: o progresso material, científico e tecnológico que vivenciamos induz-nos a acreditar na falsa imagem de que a auto-realização se dá mais rápida e energicamente através do individualismo. Sim, tornamo-nos individualistas. Até mesmo acompanhados, seja em nossos núcleos familiares ou sociais, a relação reter versus ceder não é muito clara. Gostamos de ser como o oceano que se agiganta por receber as águas dos rios mas não como a terra que empobrece por dar e gerar vida. Não mais sabemos abdicar para ganhar; dividir para multiplicar. Preocupamo-nos em incutir nas frias máquinas uma inteligência humana ao mesmo tempo que injetamos em nossas veias a frieza mecânica. Sim, nossas relações passaram de humanas para mecânicas. Habitamos metrópoles ou megalópoles; saímos às ruas e encontramo-nos com milhões de pessoas, mas sentimo-no sós. Sós como lamentava o Rai David: “sou semelhante ao pelicano no deserto; chego a ser como a coruja das ruínas... tornei-me como um passarinho solitário no telhado” (Salmos 102:6-7).
A solidão pode levar a que a pessoa forme uma imagem negativa de si própria e julgue que ninguém a aprecia. Segundo estudos médicos, a falta de um parceiro contribui para debilitar a saúde, além das estatísticas que confirmam que solteiros e divorciados têm mais possibilidade de cometer suicídio e são vítimas mais freqüentes de depressão, diabetes, câncer de fígado e pulmão. Enfim, a brasa se apaga e o carvão perde sua vida.
Será que não estamos nos sentindo únicos no mundo? Será que não perdemos os horizontes de nossas relações, principalmente entre os jovens, os quais não vêem a luz no fim do túnel de uma relação estável e duradoura?
A solidão poder ser uma ação, opção, condição. Ação quando somos compelidos a uma vida solitária por motivos externos, como trabalho. Opção, quando decidimos aventurar-nos ou passar por uma nova experiência. Entretanto, em ambos os casos, o verbo empregado é “morar” só. É o ideal? Com certeza não, mas nestes as relações não são interrompidas ou abruptamente cortadas. O veneno reside na solidão enquanto condição: a pessoa se sente só, a pessoa é só. O verbo é “ser”. Neste caso, mesmo dentro do convívio social, mesmo com a casa cheia, isolamo-nos e fechamo-nos ao mundo.
Amigo, a solidão é a maior maldição, por isso Jeremias a utilizou para descrever a destruição. Pois ela nos destrói por dentro. Pedras podem ser reerguidas, mas corações dilacerados exigem um esforço infinitamente maior. Busquemos a união. Reacendamos nossas lareiras e aqueçamo-nos com o calor de nossas almas. Pois não é bom que o homem viva só...


Prof. Sami Goldstein

Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

segunda-feira, 25 de junho de 2007

A religiosidade do agradecimento

“Sinto-me pequeno para toda a bondade que fizeste com teu servo...” (Gênesis 32:11). Jacó, apesar do iminente perigo que se aproximava na Parashá da semana passada – seu rancoroso irmão Esaú, de quem havia “comprado” o direito da primogenitura anos antes, indo ao seu encontro com quatrocentos homens – ainda encontra forças para agradecer a Deus por tudo de bom que lhe ocorrera até então.
Conta-se uma história sobre o patriarca de uma abastada família que levou seu filho a uma viagem pela campo a fim de mostrar-lhe como vivem os menos afortunados.
Passaram dias e noites numa humilde fazenda que julgaram pertencer a uma família muito pobre. Na volta, o pai perguntou ao filho: “Como foi a viagem?”
- “Foi fantástica, papai.” – exclamou com exaltação.
- “Você viu como a gente pobre vive?”- indagou o pai, curioso com sua reação.
- “Oh! Claro!” – retrucou confiante.
- “Então, o que você aprendeu dessa viagem?” – ainda cismado com seu entusiasmo.
E assim respondeu o garoto, com as mais sábias palavras que possam vir de um coração: “Vi que temos um cachorro, mas eles têm quatro. Temos uma piscina que atravessa nosso jardim, mas eles têm um rio que não tem fim. Temos luminárias importadas decorando nossas salas, mas eles têm o brilho das estrelas ao anoitecer. Nosso pátio é o maior do bairro, mas eles têm o infinito do horizonte. Temos um pedaço de terra para viver e eles têm vastos campos além da visão. Temos inúmeros empregados que nos servem, mas eles podem servir aos outros. Compramos nossa comida, mas eles cultivam o que comem. Temos muros e paredes que nos protegem, mas eles têm amigos para protegê-los.”
Com isso, o pai ficou sem palavras, ao que o filho completou: “Obrigado, papai, por mostrar-me como existe gente mais rica que nós.”
Muitas vezes esquecemo-nos do que já conquistamos e concentramo-nos no que não possuímos. Pobres ou ricos, quer estejamos passando por dificuldades ou, Baruch Hashem, não, todos – TODOS! – temos motivos para agradecer. Qual é a primeira prece do Sidur, recitada logo ao acordarmos? Modê ani – agradeço a Ti, Rei vivo e vigoroso, que bondosamente devolveste minha alma; grande é a minha fé em Ti. Levantamo-nos logo pela manhã e já começamos a calcular (lembro-me do célebre “O homem que calculava”, de Malba Tahan), não é mesmo? O que fazer primeiro? Café da manhã, depois levar as crianças para a escola, trabalho, contas a pagar, despesas...ufa! Em nosso dia a dia, não é muito difícil montar uma lista das várias reclamações que temos a fazer: “E se hoje, só hoje, pudesse deixar de levar as crianças para dormir um pouco mais? Onde vou arrranjar dinheiro para isso? E tempo, estou sem tempo!” - bem poderiam ser títulos de filmes de suspense.
Já se deram conta de como é bom ter tudo isso para fazer? Imaginemos nosso herói Jacó. Voltando para casa, acampado e diante de uma situação na qual o confronto físico parecia inevitável. Coloquemo-nos em seu lugar: mulheres e crianças na iminência de serem mortas ou violentadas, suas posses ameaçadas e até mesmo sua vida! No entanto, lá estava ele, agradecendo. Por quê? Pois simplesmente estava lá. Estava vivo e enquanto o estivesse, sua esperança não terminaria. Problemas, todos temos ou teremos. Mas depende de nós encorajarmo-nos ante um desafio ou amedrontarmo-nos com um obstáculo. Enquanto isso, agradeça pelo simples fato de agradecer. O maior ato de religiosidade reside em saber que já é uma grande dádiva estarmos vivos, sermos o que somos e termos o que temos. O resto fica para depois!

Prof. Sami Goldstein
Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

Precisamos nascer



Certa vez, irmãos gêmeos foram concebidos no útero. Segundos, minutos, horas se passaram enquanto aquelas minúsculas formas embrionárias de vida iam se desenvolvendo. A centelha de vida cresceu e cada pequenino cérebro começou a moldar-se. Com o desenvolvimento do cérebro veio o sentimento e, com o sentimento, a percepção – percepção do que estava à volta, do outro e de sua própria existência. Eles finalmente descobriram que a vida era boa e riram e se deleitaram em seus corações.
Disse o primeiro a seu irmão: “Somos muito afortunados por termos sido gerados e abençoados com este maravilhoso mundo.”
O outro concordou: “É verdade, graças à nossa mãe, quem nos deu vida e um ao outro.”
Cada um dos gêmeos continuou a crescer e logo seus braços, mãos, dedos e unhas foram se definindo. Totalmente formados, esticaram seus corpos e começaram a explorar seu pequeno mundo. Analisaram cada centímetro até que encontraram o cordão umbilical, que lhes garantia a vida través do sangue materno. Felizes com a descoberta, entoaram uma canção: “Quão grande e belo é o amor de nossa mãe, pois ela divide tudo o que tem conosco!”
As semanas tornaram-se meses e, com o surgimento de cada novo mês, passaram a notar mudanças um no outro e em si mesmos.
- “ Estamos mudando”, disse um. “O que quer dizer?”
- “Significa”, disse o outro, “que nós estamos perto de nascer.”
Um frio tomou conta de suas almas. Eles temiam nascer, pois isto significava abandonar seu confortável universo.
Disse o mais temeroso: “Por mim, viveria aqui para sempre.”
- “Mas precisamos nascer!”, exclamou seu irmão. “É o que acontece com todos.”
De fato, havia evidências dentro do útero de que a mãe já havia carregado vida antes deles. “E eu acredito que há vida após o nascimento, você não?” – acrescentou.
- “Como pode haver vida após o nascimento?”, começou a chorar o assustado feto. “Acaso não vão cortar nosso cordão de vida quando nascermos? E você por acaso já conversou com alguém que nasceu? Alguma vez alguém reentrou no útero para descrever como é nascer? NÃO!” Enquanto falava, entrou em desespero e sussurrou: “Se o propósito de nossa concepção e crescimento dentro do útero é terminar nascendo, então nossa vida não tem sentido.” Agarrando com toda força seu precioso cordão umbilical e apertando-o contra seu peito, disse mais: “E se realmente for assim, então a vida é um absurdo e não existem verdadeiras mães!”
- “Mas há uma mãe”, protestou o outro. “Quem mais nos alimentou? Quem mais criou este mundo para nós?”
- “Recebemos nossos nutrientes deste cordão e nosso mundo sempre foi este. E se há uma mãe, onde ela está? Você já a viu alguma vez? Ela já conversou com você? Não! Nós inventamos nossa mãe quando éramos jovens porque isso satisfazia uma necessidade nossa. Acreditar nela fez com que nos sentíssemos seguros e felizes.”, afirmou o incrédulo.
Assim, enquanto um entrava em total desespero, o outro preparava-se para o inevitável futuro, depositando sua confiança nas mãos de sua mãe. As horas converteram-se em dias e os dias em semanas. Chegou o momento. Ambos sabiam que o nascimento estava em suas mãos, mas temiam o desconhecido. Entregaram-se a seu destino. Choraram quando foram trazidos à luz. Tiveram uma estranha sensação e absorveram o ar seco de uma sala fechada e iluminada.. Quando estavam certos de que realmente haviam nascido, abriram seus olhos, vendo a vida após o nascimento pela primeira vez. O que viram? Os lindos olhos de sua mãe enquanto eram acariciados em seus braços. Eles estavam em casa.
Nascemos para morrer e morremos para nascer. Precisamos nascer e acreditar na luz e ternura que nos esperam em nossa próxima etapa da vida. Dizer ‘lechaim” (à vida) ao final da Shiv’á (período inicial do luto judaico) não é apenas valer-se de um slogan milenar: é, antes de mais nada, uma convicção! Cabe-nos aceitar nosso destino, depositando nossa confiança nas sábias palavras de Jó (1:21): “D-us deu, D-us tomou. Seja o nome do Eterno abençoado”, pois é Ele quem está a nos “acariciar” quando ultrapassamos a barreira de nossa existência material. E eu acredito que há vida após o “nascimento” – um dos alicerces de nossa fé.
Que este conto possa ajudar a consolar e confortar aqueles que tanto precisam. Amén.



Prof. Sami Goldstein



Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

O desafio do destino


Adversidades ocorrem em nossas vidas. Por mais que planejemos, sempre estaremos sujeitos a que nossos planos percam sua efetividade. Quando temos sucesso em nossas empreitadas, assumimos que o mérito é todo nosso: nós fizemos, nós conseguimos, nós alcançamos. Mas quando algo sai errado, muitos apontam para apenas um culpado: Deus.
Ouvimos frases como: “D-us não gosta de mim”, “Ele está contra mim”, etc, e estes são o estopim de uma revolta interior.
D-us? Que parcela de culpa tem Ele naquilo que dá de errado em nossas vidas? Será que o Benevolente, o Bondoso, o Piedoso, o Misericordioso (como referimo-nos a Ele durante as orações), Aquele que nos deu o dom da vida, pode realmente transformar-se, de uma hora para a outra, na “pedra do nosso sapato”?
Conta-se a seguinte história:
Um discípulo procurou o Rav Nachman de Breslav: “Não continuarei meu estudos dos textos sagrados”, disse. “Moro numa casa com meus irmãos e pais, e nunca encontro as condições ideais para concentrar-me”. O rabino então apontou para o sol e pediu para que o discípulo colocasse a mão na frente do rosto, de modo a ocultá-lo. E assim fez o discípulo. Concluiu o sábio rabino: “Sua mão é pequena, e, mesmo assim, conseguiu cobrir por completo a força, a luz, e a majestade do imenso sol. Os pequenos problemas lhe dão a desculpa para não seguir em busca de seus objetivos. Ninguém é culpado pelo seu insucesso. Assim como a mão pode esconder o sol, o temor ao desafio tem o poder de esconder a luz interior. Não deixe que isto aconteça.
Paul Tillich, em seu The Courage To Be, afirma que “o mundo da angústia é um mundo em que as categorias, as estruturas da realidade, perderam o valor”. E, nesse mundo, quando perdemos a consciência de que nós somos os detentores da ação e, principalmente, da solução, procuramos um culpado para o nosso fracasso.
Uma das premissas judaicas é o Livre Arbítrio. O Todo- Poderoso, ao criar-nos, conforme o relato bíblico, deu-nos o reflexo de Sua imagem. E o que significa isso? O poder de decisão. Somos os únicos seres na Terra capazes de guiar nossas vidas por vontade própria. Nem mesmo o mais inteligente dos animais pode desvincular-se de seu instinto, por mais que seja ensinado a fazê-lo. Conforme Rabi Iochanán diz no Talmud (Sucá 53a): “Os pés de um homem são responsáveis por ele; eles o levam ao seu destino”. E este destino, de acordo com o judaísmo, não é pré-determinado. Temos em nossas mãos todas as ferramentas necessárias para reescrevê-lo constantemente. Mas, como mencionado anteriormente, estamos sujeitos a eventuais fracassos. Claro, vivemos regidos pelas leis da natureza. Se não fosse isso, não seríamos criaturas feitas à imagem de Deus e sim Suas marionetes!
Durante uma de minhas aulas, uma aluna me perguntou: “Mas que livre-arbítrio têm aqueles que sofrem com a fome no Nordeste? Acaso eles podem escolher entre a fome e a fartura?” A resposta para esta pergunta está no Birkat Hamazon, a prece que recitamos ao final das refeições: Baruch atá Ado-nai hazán et hacól, Bendito sejas, ó Eterno, que manténs a todos os seres. Se todo alimento provido pela Terra fosse repartido de forma justa e igual, não haveria mais fome. E com base nisto, podemos explicar várias tragédias que assolam a humanidade (até mesmo as da História Judaica), que são obras do homem, e não de D-us. Maimônides (Hilchót Teshuvá 5,2) afirma veementemente: “ninguém o força (o homem), ninguém decreta, ninguém o arrasta para nenhum dos lados; ele mesmo, conscientemente, toma o caminho que quer”. Nem sempre é o melhor. Esta é a mesma opinião de Rashi, ao comentar a Bíblia (Números 22:35): “O Todo-Poderoso ajuda o homem a trilhar as veredas que ele mesmo escolhe para si”.
Rav Nachman tinha razão: às vezes o medo de enfrentar o desafio faz com que pequenos problemas transformem-se em grandiosas desgraças, ocultando a luz que vem do íntimo de nosso ser. E quando entramos neste mundo - o mundo da angústia, da falta de esperança, da desmotivação - perdemos cada vez mais a noção da realidade e, consequentemente, a solução se torna cada vez mais difícil. Talvez não consigamos reverter nosso fracasso na primeira tentativa, ou na segunda, ou na terceira... mas não podemos desistir. Um filósofo disse: “uma pessoa só morre quando deixa de amar”, e amar significa lutar por aquilo que acreditamos. A versão judaica deste ditado diz que nada pode se opor à vontade humana. E mais: a lei é bem clara ao afirmar que “ein somchin al hanês” - não vivemos em função de milagres. Eventualmente podem ocorrer, podemos (às vezes devemos) orar para que aconteçam, mas é só. Ser judeu significa agir. Ser judeu significa manter o otimismo, mesmo quando este parece impossível. O desafio do destino está dentro de nós!
Prof. Sami Goldstein
Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

quarta-feira, 20 de junho de 2007

O tanque de areia


Em meio a um mundo caótico, dominado pela violência e falta de valores, sentimo-nos cada vez mais impotentes ante tal situação. A visão de um inimigo poderosíssimo faz com que qualquer potencial reação de nossa parte seja precedida por um momento de indecisão. Fraquejamos diante da iminente derrota que criamos em nossas mentes. “Para que lutar?”, “de que irá adiantar?”, ou “nosso empenho é inútil!” são apenas alguns dos vários argumentos que construímos durante nossa trajetória. Remar contra a maré exige que sejamos hábeis marinheiros. Vemo-nos, porém, como frágeis ferramentas incapazes de servir ao propósito de nossa criação. Entretanto, como protagonistas no palco da história, precisamos saber se nossa atuação condiz com o papel a nós confiado, para, no fim do enredo, chegarmos a uma empolgante conclusão deste drama. Sabemos?
A vida é um magnífico dom; o maior dos tesouros. Mas há uma grande diferença entre existir e viver. Cabe-nos a opção de existirmos como seres humanos – mais uma espécie entre tantas outras – ou vivermos como homens, cientes de nossa fundamental tarefa na constante renovação do universo que nos cerca. Nesse contexto, despontamos como uma pequena, porém essencial, gota no oceano da humanidade e por ela somos humanizados, cristalizando um maravilhoso ciclo no qual damos e recebemos.
Elie Wiesel diz que “Deus criou o homem porque gosta de ouvir histórias”. Conta-se uma sobre a mãe que, certo dia, levou seu filho de cinco anos para passear no parque. Enquanto brincava no tanque de areia, a criança notou um menino da sua idade numa cadeira de rodas. Como estava só, foi convidá-lo a brincar. Pequeno que era, não podia entender que ele não teria como entrar no tanque. O menino na cadeira de rodas, chorando, agradeceu e começaram a conversar. Nesse momento, o primeiro pegou sua pá, encheu-a de areia e despejou tudo no colo de seu novo amigo. Logo em seguida, fez o mesmo com seus brinquedos. Sua mãe, surpresa com a atitude, perguntou-lhe: “Mas por que você fez isso?” E a criança, na mais pura ingenuidade, respondeu com a voz de seu coração: “Ele não podia entrar na areia, então levei a areia até ele. Agora podemos brincar juntos!”
Constatar problemas é muito fácil. Podemos permanecer comodamente instalados em nossos “tanques de areia”, felizes por sermos afortunados. Podemos, inclusive, notar os defeitos que existem em nossos companheiros e agradecer por estarem fora de nosso meio, tornando-nos passivos cúmplices de um mundo desumano. Afinal, como dizia um célebre pensador (Konrad Adenauer), vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos o mesmo horizonte; e acostumamo-nos com esta idéia. Envolver-se implica em esforço e o desafio intimida. No entanto, enquanto omissos, nossos filhos estão aí, aprendendo a julgar correto o incorreto, tomando o exemplo de seus pais. Sem um modelo de ação, acabam encontrando seus próprios métodos, os quais, na maioria das vezes, provam-se ainda mais nebulosos. O Pirkei Avot – a Ética dos Pais, dá-nos seu recado: “ninguém lhe pede que termine o trabalho, mas nem por isso você é livre para abandoná-lo” (Ética dos Pais 2,15). Cada um tem, ao seu modo e de acordo com as possibilidades, sua parcela de responsabilidade. Se o mundo fora de nosso “tanque” for deficiente, devemos a ele estender nossa “areia” – tudo o que nos traz segurança, alegria e conforto - e não apenas assistir descompromissadamente a um nefasto espetáculo. Todos temos o direito “brincar” em pé de igualdade e, principalmente, juntos. Se as águas forem turbulentas e ameaçarem nossos objetivos, lembremo-nos, como marinheiros da razão, que não é a pressão do vento nas velas, mas o insistente movimento do timão que determina o curso de nossas vidas. Não enfrentar os problemas de nossa sociedade é sentar-se no banco dos réus para simplesmente ouvir a sentença: culpado!


Prof. Sami Goldstein

Rabino da Comunidade Israelita do Paraná

Bom dia vida!


"Como é preciosa a manhã"


(Machané Issachar)


Tome um tempinho antes de ir ao trabalho ou pelo menos antes de começar seus afazeres para refletir sobre o milagre que já aconteceu em seu dia: você está vivo!


D-us está nos pequenos detalhes, o tempo todo!


Um Boker Tov (bom dia) a todos!